ricardo carvalho + joana vilhena
arquitectos

 
rcjv arquitectos

projectos

publicações

escritos

joana vilhena


ricardo carvalho
   

   
 

Notas sobre uma Prática


Fronteira
Trabalhamos historicamente na fronteira entre várias disciplinas. Essa fronteira já não possui hoje contornos ou cartografia definida. Alarga-se e contrai-se consoante o propósito e contexto da situação que possa envolver o acto de construir. Por vezes a acção é apenas estratégia (aberta a várias concretizações) outras é construção no seu sentido mais tradicional. A oscilação entre um e outro modo de operar caracteriza a nossa prática.
A Arquitectura residiu poucas vezes no centro da construção. Com a modernidade, tornou-se ainda mais distante desse centro, porque a organização do mercado caminhou obstinadamente no sentido da indiferenciação. Hoje, imersos numa cultura de especialização, uma cultura com dificuldade em criar as grandes sínteses, a indiferenciação passou de provisória a instituída. Ainda assim pede-se à Arquitectura a sua força fundacional, amabilidade de ambiente e significado cultural.
Existe na cultura contemporânea uma fronteira entre o singular e o banal. Esta fronteira ganhou contornos inesperadamente definidos no mundo da Arquitectura e na cidade. Isto quando a propagação das ideias artísticas de esboroamento entre popular e erudito ganharam adesão global – a arte contemporânea há muito que procedeu à superação deste impasse. Na cidade ocidental contemporânea o singular coincide, habitualmente, com a Arquitectura e o banal com a construção não monotorizada, sem significados que transcendam os materiais e os programas. A tensão e desiquilíbrio entre um e outro - entre espectacularidade e indiferença - parece-nos pouco operativa como processo de construção da cidade.
A cidade e a Arquitectura constituem um todo indissociável e a experiência do quotidiano está na base do nosso trabalho como arquitectos. A Arquitectura é o modo de pensamento que, naturalmente, procede à síntese entre banal e singular e daí deriva a sua especificidade e capacidade de acolher a vida. Muitos dos edifícios que mais nos interessam possuem essa indeterminação. As forças que construíram a cidade foram também monotorizadas pela Arquitectura nas suas mais variadas estratégias – por vezes um único edifício emana a força simbólica de uma cidade, e, ao invés, quase sempre uma cidade é definida por um ambiente impossível de ser traduzido por uma única obra.
De um modo ou de outro é sempre a experiência da Arquitectura aquela que permite a criação da identidade (ou que nós experimentamos como tal), a fixação de um lugar. A Arquitectura na sua posição fronteiriça (e nunca como uma especialização) pode ser o modo de atribuição de um carácter civilizador à estrutura e infra-estrutura, aos programas e às questões tecnológicas, às forças do mercado e aos temas sociais dominantes em cada época.


A dúvida testa o mundo
A incerteza que referimos a propósito do nosso trabalho, prende-se com tornar a dúvida operativa, face a um panorama de absoluta pulverização de posicionamentos, conceitos e sistemas. Alargar o campo da dúvida enquanto ferramenta, continua a ser uma necessidade na organização do mundo do trabalho. A incerteza refere-se ainda à constatação da Arquitectura como matéria mediática. Essa condição não nos deixa seguros sobre a compreensão do seu lugar na sociedade, do seu papel ao longo da história na configuração do público e do privado, dos espaços do trabalho e do tempo livre e da relação com a paisagem.
Em vez de uma força centrípeta de um edifício interessa-nos mais a força imprevisível de um conjunto, com a sua densidade feita de vida, tempo e imprevisibilidade. Arquitectura, se nos for permitido arriscar uma definição, é pensamento e construção como um corpo único de conhecimento – um conhecimento que acreditamos ser transmissível e que ambiciona a transformação para além do objecto. Hoje a separação entre ambos no contexto onde operamos, que é o contexto da globalização, não pára de aumentar. As posições agudizam-se. Do lado da Arquitectura produzida com fundamento cultural, a experiência estética nem sempre corresponde a uma desejável força transformadora dos lugares. A Arquitectura pode ambicionar a um significado ou desvelamento de algo latente.
A dúvida, o princípio da incerteza, poderá ser um princípio indutor na construção dessa mesma paisagem onde domina a certeza burocrática e o desinteresse por uma ideia mais abrangente de Arquitectura, que não nos garante um suporte de vida mais humanizado. “A dúvida é uma hermenêutica social. É o processo pelo qual testamos as condições de verdade e as consequências práticas, pragmáticas, dos nossos actos como intervenientes no mundo” (1)


Um acervo universal
Um projecto de arquitectura é um acto de investigação. É essa investigação o que permite ao arquitecto habitar criticamente o mundo da construção, e, sobretudo, permitir que os constrangimentos não colidam com o projecto, mas que sejam integrados no processo de forma a tomar a mesma direcção da investigação.
Gostamos também de pensar que não estamos simplesmente à procura de uma maneira identificável de trabalhar os lugares e os programas. Podemos ser surpreendidos positivamente pelos constrangimentos e deliberadamente tomar outras direcções que se venham a revelar no processo construtivo, disposição espacial e na expressão final do projecto como temas de projecto. Poder-se-ia dizer que trabalhamos com o problema e não contra o problema.
“A lógica de um pensamento é o conjunto das crises que atravessa, parece-se mais com uma cadeia vulcânica do que com um sistema próximo do equilíbrio” (2) afirma Deleuze. Um projecto de arquitectura não é um sistema em equilíbrio. Dessa sucessão de crises não resultará, sabemos hoje, uma validação universal das soluções, mas apenas e tão-só um vislumbre de intensidade no momento em que um Arquitecto sentiu ter criado um suporte de vida.
Acreditamos que a Arquitectura não é feita para substituir, mas sim para acrescentar. Só vale a pena substituir se se acreditar poder acrescentar algo. Em Portugal, nas últimas décadas, a substituição pela substituição, de edifícios ou lugares, não valorizou a possibilidade do novo. As pessoas associam hoje, demasiadas vezes, o novo a algo pior. Muitos associam a substituição a uma perda, precisamente porque durante muito tempo, com as excepções que todos conhecemos, a Arquitectura não garantiu a mesma naturalidade, intensidade e estabilidade que a memória das pessoas associava a esses lugares desaparecidos.
A Arquitectura pode e deve actuar mas não pode livrar-se do passado. Não trabalhamos em conflito com o passado, que aliás não pudemos escolher, mas sim no sentido de convocar esse passado com uma liberdade apenas permitida pelas ideias – um passado que não é local, é um acervo universal.


Radicalidade
Estamos interessados numa Arquitectura com dimensão de radicalidade. Radicalidade, etimologicamente significa “próximo da raiz”. Mas a radicalidade, entendida como posicionamento disciplinar, não significa que a Arquitectura não possa ter uma presença natural, que não possa pertencer a um lugar sem atrito, que as pessoas não possam aderir. A radicalidade prende-se com encurtamento da distância que separa a ideia da obra. Radicalidade pode não significar ruptura. Radicalidade pode significar continuidade. Não deixa se ser surpreendente que ruptura e continuidade, quando associados à intervenção na cidade, não significam o mesmo para todos.
A simplificação dos enunciados continua a alimentar o nosso processo de trabalho e o nosso interesse pela Arquitectura. Associado a uma procura pela clareza estamos interessados na eleição de um tema que desempenhe um papel importante no desenvolvimento do projecto. O nosso trabalho sustenta-se por um olhar sobre as matérias da cidade e da vida quotidiana. É a cidade que, geralmente, coloca os temas de quase todos os enunciados de Arquitectura, com a densidade física e um colectivo, permanente e renovado horizonte de expectativa.


Todos os lugares
O nosso segundo atelier estava instalado no último piso de um edifício no bairro da Lapa em Lisboa. Do terraço podia ver-se o Rio Tejo e toda a estrutura física da cidade. Mas o mais surpreendente era a construção de moradias (chalets como lhe chamam as pessoas) no interior dos quarteirões. Ao contrário do que se poderia pensar, a ordem de chegada não foi a construção de casas e posterior loteamento do solo para rendimento com prédios. Ao invés, construíram-se casas de gosto ecléctico no interior dos quarteirões depois da construção dos edifícios de habitação. O resultado é uma estrutura física magnífica, devido à densidade, à complexidade dos espaços vazios “desenhados” pela construção e da vegetação (jardins e hortas) que invadem esses espaços.
Tudo isto está oculto à rua, e provoca surpresa a quem descobre essa cidade das traseiras, a qual se acede por passagens em túnel. Esta circunstância de fazer conviver o colectivo e o individual, construído físico e o construído arbóreo, de não revelar tudo ao primeiro olhar, da possibilidade de descoberta parece-nos ser um elemento importante para fazer Arquitectura.
Hoje o atelier está na Rua do Norte no Bairro Alto em Lisboa. A especificidade comercial dessa rua, a força de ambiente e abertura cultural não foram monotorizadas pela Arquitectura. Também com isso podemos aprender – com o que está fora de um projecto mas carregado de vida. A Arquitectura pode enfraquecer determinados fenómenos e fortalecer outros que possam transformar positivamente um lugar e um modo de o viver. O método que podemos propor, talvez o único, é transportar a experiência da intensidade dos lugares que conhecemos (e onde nos sentimos extraordinariamente bem) de modo a poder ambicionar a inscrição destas qualidades nas obras que nós, como arquitectos, vamos legar à cidade.


Um projecto
O projecto de modernização da Escola Sebastião da Gama partiu de um princípio: transformar aquilo que considerávamos incompleto.



Ricardo Carvalho e Joana Vilhena


notas ao texto
(1) Bhabha, Homi K. “Ética e Estética do Globalismo: Uma Perspectiva Pós-Colonial” in “A Urgência da Teoria” Tinta-da-China, Lisboa 2007. “A duvida é uma hermenêutica social. É o processo pelo qual testamos as condições de verdade e as consequências práticas, pragmáticas, dos nossos actos como intervenientes no mundo. A dúvida global é crucial para a nossa noção do que está em causa quando nos afirmamos actores globais. A dúvida, no sentido de prática, que precede a acção e a intervenção, é um (...) elemento poderoso na dialéctica da transferência e da transformação que cria a metáfora global” p. 40
(2) Deleuze, Gilles “Conversações”, Fim de Século, Lisboa 2003. p.118